Jéssica Beltrame
Jéssica Beltrame, Content Analyst Umbler

Mulheres na Tecnologia #1: Softskills e liderança feminina

Seguindo a série de posts sobre Mulheres na Tecnologia, a Umbler busca dar voz às mulheres das engenharias, programação, TI ou que estejam envolvidas de alguma maneira com o universo tecnológico.

Quem trabalha ou já trabalhou em empresas de tecnologia sabe que há muito mais homens na área do que mulheres. Quando analisamos a história e os números de mulheres no mercado de TI, a realidade não é muito animadora. Porém, é preciso destacar grandes nomes, como Ada Lovelace, Hedy Lamarr, Grace Hopper entre outras.

Neste post entrevistamos algumas profissionais sobre a carreira, softskills e os desafios de trabalhar com tecnologia. Elas, além de fazer a diferença no local em que trabalham, também dão dicas para ajudar quem está começando e contam histórias e vivências pessoais que podem inspirar a muitas mulheres que sonham em trabalhar no mundo da tecnologia.

Product Manager – Nubank

Jacqueline Yumi Asano

@jacquelineyumiasano

Sobre os Softskills que precisou desenvolver para alcançar o cargo de Product Manager, na Nubank, Jacqueline destaca: Liderança, Comunicação, Solving problems mindset e Empatia.

“Ser líder não é algo que você crie do nada. Vem com o tempo e está ligado principalmente ao fato de você conseguir confiança do time. E confiança se constrói trabalhando no dia-a-dia, ajudar o time a vencer, tirar os obstáculos da frente, dar a visão da estratégia, mostrar o impacto do nosso trabalho para as pessoas usuárias.

Ter uma comunicação clara é bem importante para todas as pessoas entenderem o porquê de estarmos trabalhando no que estamos trabalhando além de engajar diferentes stakeholders no seu projeto.

Problemas a gente tem a todo momento. Aprender a ter uma postura e pensamento de resolução de problema no dia-a-dia é importante para conseguirmos de fato resolvê-lo.

Acho que a empatia é a softskill mais importante. Se colocar no lugar da pessoa, perguntar como ela se sente, entender as expectativas de cada um com o projeto, aprender a programar pra entender o mindset das engenheiras”

Dicas importantes:

  1. Don’t get too overwhelmed (desesperada, estressada): é preciso ter paciência e respeitar o seu tempo
  2. Invista tempo se familiarizando em como a empresa funciona, em como é fazer produto, quais ferramentas usar e quando, quem são as pessoas com quem você irá trabalhar e quais as expectativas que seu time e líder tem sobre você
  3. Descubra com sua líder no que você deveria estar investindo o tempo e o que ela espera de ti no curto prazo
  4. Envolva-se nas comunidades de tecnologia. Se entrou numa empresa de chatbots, comece a ler artigos sobre chatbots e vá em um meetup, por exemplo. Tenha o seu arsenal de apoio (pessoas e recursos)

“Queria deixar apenas um recado de que você, mulher, pode ser o que quiser.

Eu me formei em Engenharia de Alimentos, adorava marketing durante a faculdade (fiz parte de Empresa Junior, Choice, iniciativas da Fundação Estudar, AIESEC) e me sentia bem perdida, por não me sentir completa em algo. Eu entrei numa startup de tecnologia e comecei atendendo os clientes e depois migrei pra ser Gerente de Produto. Eu nunca me imaginei nessa carreira mas é algo que me deixa completa e me desafia diariamente. Se você tem algo que você acredita, vai atrás. Você realmente pode ser o que quiser ;)”

Jacqueline também é fundadora do Mulheres de Produto, um canal no slack para mulheres interessadas em tecnologia.

Product Owner – Affero Lab

Erica Castro 

@erica-castro

Formada em Jornalismo, Erica trabalha há 10 anos fazendo interface e atuando diretamente com áreas de tecnologia, desenvolvimento e fornecedores. Para ser Product Owner ela precisou desenvolver algumas habilidades importantes:

“Com isso descobri (não tão rapidamente como gostaria…rsrs ) que uma habilidade essencial para conseguir realizar qualquer projeto é o relacionamento. Normalmente falamos de metodologias, frameworks e ferramentas, mas a chave disso tudo está nas pessoas. Entender de pessoas e suas motivações é um passo importante para criar relações de confiança que, aí sim, podem levar uma iniciativa ao sucesso.

Mas para que isso fosse possível, precisei (e preciso continuamente) me conhecer, aprender a ter empatia, escutar ativamente, dar e receber feedbacks etc. Aí entra o combo completo de autoconhecimento, de saber como reagimos ao mundo e às pessoas. E como isso afeta as nossas decisões e relacionamentos”

Dicas importantes:

“Não diria apenas para as mulheres, mas para todos aqueles que desejam se manter no mercado de trabalho. O futuro é VUCA (do inglês Volatile, Uncertain, Complex e Ambiguous, que numa tradução livre seria Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo). Neste contexto, quando a gente fala em habilidades para a profissional do futuro, ficam entre os top 5: ser curioso, saber aprender e, principalmente saber desaprender. E eu diria, uma pitada de paixão e de vontade de impactar as pessoas, a sociedade. De saber que o que você faz, vai muito além daquela entrega pontual”

A primeira da família a cursar ensino superior, Erica conta com orgulho sua trajetória:

“Sou a primeira da minha família a ir para a faculdade. Embora seja uma defensora das novas formas de aprendizado, considerando a minha história pessoal e contexto econômico, ter conseguido fazer faculdade e concluir um MBA me dá um baita orgulho. Orgulho de saber que apesar de todas as dificuldades, privações e contratempos, consegui seguir adiante. Sei que a realidade costuma ser bem mais cruel e privam diariamente milhares de meninas de terem acesso à educação de qualidade. Por isso, tenho como inspiração esta menina, Malala Yousafzai. Seu discurso empodera meninas e reverbera em todos aqueles que desejam um mundo melhor.”

UX Designer – Resultados Digitais

Caroline Guilherme

@carolineguilherme

Formada em design gráfico e co. fundadora do Mulheres de Produto, Caroline fala sobre comunicação interpessoal como um dos pontos mais importantes do mercado de trabalho.

“A soft skill principal que eu destaco é a comunicação entre as pessoas. Aqui não estou falando apenas da capacidade de palestrar, apresentar trabalhos, fazer workshops e etc. Estou falando sobre a mais pura forma de comunicação entre duas pessoas que precisam interagir para conseguir um resultado em conjunto. Como designer, em algum momento, algum projeto, vamos precisar nos envolver com pessoas de todas as áreas da empresa, com diferentes clientes e stakeholders.

E nem preciso dizer o quanto o trabalho em equipe é essencial para o meu trabalho. Para desenvolver a habilidade de trabalho em equipe é preciso muita criatividade e flexibilidade. A única maneira de saber se estamos evoluindo é manter a abertura para receber e dar feedbacks. Saber conversar com aquela colega quando uma atitude dela não foi legal, te dará abertura para que ela também diga a você onde precisa melhorar. 

A segunda soft skill é justamente sobre receber feedbacks. Designers vão receber feedbacks dos seus trabalhos o tempo todo, mas claro que isso não está restrito às pessoas que trabalham com design. Saber entender cada feedback (por mais crítico, emocional ou desestruturado que seja) é o ingrediente mais poderoso para construir soluções que realmente façam diferença.

Uma das armadilhas de trabalhar como designer, é que você não será dona ou dono da solução e achar que a ideia deve ser sua responsabilidade é um erro de principiante. Nossa responsabilidade é trazer o melhor de cada ideia de cada pessoa que está ali participando do projeto e traduzir essas ideias para a tecnologia.  O design final é o resultado da interação da equipe e do aproveitamento de todos os feedbacks. Uma dica que tenho é sempre buscar esses feedbacks, e lembre-se quanto mais testes realizar, mais feedbacks vai conseguir”.

Dicas importantes:

“A sua forma de interagir e de se comunicar não vai agradar todas as pessoas que você conhecer.  Mulheres mais assertivas, que falam o que pensam, são muitas vezes associadas como “bravas” ou “mandonas”, enquanto homens com essas atitudes são apenas “firmes” e “profissionais”.  Essas diferenças estarão presentes quando a gente menos esperar. Por muito tempo tentei encontrar um meio termo, mas meus melhores resultados aparecem quando eu paro de querer agradar a todos.

O importante é focar sempre nos seus objetivos. E tenha objetivos. Aprenda a criar planos de ação para atingir seus objetivos. Encontre na sua área, na sua empresa, pessoas que te inspiram e busque contato com elas, com o tempo você vai conseguir feedbacks que vão te ajudar a construir seus objetivos.”

Senior Recruiter – Torre Technologies Co.

Ayslan Leal Schmidt

@ayschmidt

Ser recrutadora mulher na área de tecnologia não é tarefa fácil. Para isso, Ayslan precisou desenvolver softskills importantes:

“Resolução de problemas – Com certeza, uma das habilidades mais necessárias não somente em recrutamento como em demais áreas. É usar de criatividade para resolver desde agendas complexas de candidatos e gerentes, até desenvolver uma nova forma de encarar gerenciamento de conflitos dentro de organizações.

Adaptabilidade  – Para trabalhar com tecnologia, é uma das soft skills mais úteis. Estamos em um mercado que se altera a todo momento e se torna de extrema importância que possamos nos adaptar rapidamente às mudanças e principalmente, responder de forma rápida a estas. Ser mais pragmático e metódico na forma como se organiza ou aprender algo novo, pode te ajudar nestes momentos de mudança.

Organização – Ser multitarefas é só o princípio do que entendemos hoje como Tech Recruiter. Toda(o) recruiter é uma mistura de artista, criando e inovando processos, até um cientista, que consegue humanizar dados numéricos de turn-over, attrition, etc. Para lidar com todas estas informações e diferentes facetas do papel, a organização é essencial para atingirmos um bom resultado. Foco é o que me ajuda nesta habilidade, entender de priorização e usar de ferramentas como Kanban, Trello e check-lists diários, podem ajudar você também.

Comunicação – Sou mais fechada, então comunicação sempre foi um ponto de desenvolvimento no meu perfil. Busco praticar, assim como qualquer outra skill. Então, se assim como eu, você não é lá super ultra extrovertida, sugiro se colocar em situações em que você exercite esta skill. No momento, possuo como mentores de Storytelling dois colegas da África do Sul, que me auxiliam a montar apresentações e como estruturar minha fala em inglês, para que não somente seja entendível, como também atraente para o público. Outra sugestão: ache comunicadores que admira e peça ajuda. Humildade em reconhecer que você precisa melhorar em algo e pedir auxílio de experts, nunca é demais.”

Dicas importantes:

“Leituras inspiradoras: Leia sobre mulheres que mudaram o curso da história por simplesmente tentarem algo diferente. Ada Lovelace, Grace Hopper, Carol Shaw, são apenas  alguns dos nomes que você deve conhecer e se inspirar.

Atitude: Se você parar para refletir, é a atitude destas mulheres extraordinárias de nossa história que as fizeram reconhecidas. Você pode dominar todas as técnicas, conhecer todas as fórmulas matemáticas, mas somente teoria não gerará resultado. É muito necessário o estudo do assunto, mas a prática que a levará ao sucesso.

Conectividade: Neste ponto, sugiro conectar-se com pessoas incríveis. E para isto nada melhor que participar de eventos da área. Technovation Challenge, por exemplo, é um evento que tem como foco ensinar programação a meninas e geralmente conta com grande número de mentoras e aprendizes. É uma forma de você se inserir na comunidade, conhecer pessoas que já tem um propósito e aprender com todas.

Criatividade: Há textos já publicados, livros e muito estudo a ser feito. Mas sugiro que acima de somente entender mais sobre o assunto ou estudar, que você use de sua criatividade para desenvolver novas ideias, algo que faça sentido em sua comunidade ou simplesmente que possa favorecer o movimento de mulheres em Tecnologia. “

Product Coach – Concrete Solutions

Andressa Chiara

@andressachiara

A participante do Code Like a Girl, Andressa fala que entre as softskills que precisou desenvolver para atuar na tecnologia estão gestão de conflitos, comunicação não violenta, técnicas de coaching e mentoria.

“Como mulheres, temos que ser muito melhores para sermos reconhecidas. Mas é uma área apaixonante, então faço um apelo: veja isso como um desafio, mas valorize muito os feedbacks positivos, pois eles são um sinal claro de que você está no caminho certo. Sinto uma dor muito forte em ver mulheres fantásticas sofrendo de síndrome do impostor. Toda vez que este tipo de problema surgir e você começar a se cobrar demais, tente analisar os fatos friamente e pratique a autoempatia. Ajuda muito nisso tudo se você construir uma rede de apoio com outras mulheres de tecnologia, e tiver uma mentora para ajudar no seu desenvolvimento profissional e nos momentos difíceis.”

Dicas importantes:

“Uma questão interessante é que é comum a crença limitante de que você precisa ter um background de tecnologia para trabalhar em tecnologia. Eu sou formada em cinema. Se há uma lição a ser aprendida é que a complexidade no desenvolvimento de software é 90% pessoas e 10% código, e que todos os problemas são de comunicação. Ironicamente, criar e gerir um produto digital não é muito diferente de fazer um filme, exceto pelo output. Você lida com orçamento, monta um time multidisciplinar.

Existe uma quantidade enorme de incerteza, e você sempre tem que pivotar aquilo que tinha sido pensado no início do processo. São os mesmos desafios de software, e a experiência em outros contextos traz um pensamento fora da caixa que é muito necessário no meio de tecnologia. Por isso, não deixe uma formação fora de tecnologia ser uma barreira para seu ingresso na área. Você tem contribuições fantásticas a fazer”.

 

Já está sabendo do evento da Umbler? Com o intuito de dar voz às mulheres na tecnologia, a Umbler lança o evento Women’s Voices in Tech, que conta com palestras sobre liderança e empoderamento feminino dentro da tecnologia, buscando promover um local acolhedor e participativo, para debates e muito aprendizado. Participe!

E você, se identificou com os relatos das meninas? A Empresa que você trabalha tem alguma ação com relação a esta questão? Conta pra gente!

A conversa foi tão boa e as meninas deram tantas dicas legais, que o próximo post será sobre como se manter atualizadas. Se você quiser saber mais sobre ferramentas, páginas, grupos, livros, eventos e todo tipo de material para estudo e aprendizado que a mulherada utiliza, fica ligada aqui no blog.

 

Jéssica Beltrame
Jéssica Beltrame, Content Analyst Umbler